Dos vinte segundos antes do beijo

Você não sabe o que foi aquele beijo. Havia em seus olhos uma multidão de estranhos que, de repente, parou instantes para olhar. Empurrei os seus olhos com os meus e ouvi o silêncio dos seus pensamentos, já não sabendo se aquilo que eu pensava era meu ou se era dele porque olhar nos olhos de um estranho é se deixar espiar por estrelas. Como se aquilo que eu pensava também já fosse tarde demais, meus pensamentos sugados pelos olhos do outro. Havia naqueles olhos uma correria inútil de tampar segredos e eu soube de todos eles, não por meio de palavras, mas por meio de silêncios. Eu nunca soube decifrar silêncios, mas posso tocá-lo com a ponta dos dedos. Assim eles ficaram, os segredos daquele olhar, no canto das coisas que eu pensava e pensava, antes de aproximar os meus lábios. Você não sabe o que foi aquele olhar. Os olhos dela eu nunca mais vi, não eram os olhos que me fitaram, de maneira fugidia, como na primeira vez. Eram olhos que guardavam perguntas inocentes, e eu quase arrumei de volta os seus cabelos, abotoei a sua blusa e lhe pedi desculpas por ter faltado com o respeito. Mas sorrisos são pontes que se abrem no rosto para o outro poder passar. E só por conta daquele sorriso eu atravessei a distância entre o meu rosto e o dela para encostar os meus lábios aos seus.

                   





Essência

Pessoas vestem roupas. Até a minha cama é forrada de lençol. Tem meia para o pé e luva para a mão. Tem calcinha, sutiã, touca e cachecol. Meu cachorro é cheio de pêlos e a montanha é cheia de árvores. Hoje, até as nuvens esconderam o céu e a grama forrou o quintal. Uma coisa é por cima da outra. A bala veio enrolada no plástico e até a borboleta se cobriu. Quando eu tiro a minha roupa, a epiderme não me abre e, se eu me descascasse, ainda seria músculo a enrolar o osso. É. Ainda tem o osso. Talvez eu seja, então, só aquela carninha dentro do osso de uma coxa de galinha.

                   





Juninho

Há tantos muros pichados. Ninguém mais desenha bisões ou mamutes na parede das cavernas porque os açougues foram inventados. Não é mais preciso caçar. Não é a fome que desafia a sobrevivência, mas o esquecimento. Esqueço-me da mulher que passou ao meu lado. Esqueço-me até mesmo do homem que respondeu oito horas, de nada. Mas Juninho não me deixa esquecê-lo. Juninho assina em todos os muros o nome que sua mãe escolheu e os amigos apelidaram. Pobre Juninho, não quer ser esquecido. Verba Volant, Scripta Manent. Eu aqui registrando os meus pensamentos contra a anamnese. E Juninho também.

                   





Sementeira de tulipas

Querido Helano,

Hoje eu comprei sementes de girassol. Há isso de extraordinário no mundo. Quando alguém se sente só ou com saudade de outrém pode comprar sementes de girassol para vê-lo crescer. Pode até fazer uma sementeira de tulipas. Neste caso, é preciso aguar todos os dias, com a ponta dos dedos, deixando cair uma ou duas gotas, apenas. Já as coisas abrutalhadas, máquinas, tratores ou edifícios, deixo aos outros, cuidarem. Também elas precisam de carícias: não vê o homem pendurado nas vidraças com um pano molhado? Não vê a máquina acarinhando a outra com a lixa? Há muitas formas de cuidar. E, felizmente, o delicado e o bruto na esfera do mundo. Se me ocupo da semente é porque escuto o seu silêncio. O silêncio com que ela abraça, tão brandamente, o seu grãozinho de terra.

                   





Cachecol xadrez

Querido Helano,

será que, às vezes, a gente vai com tanta pressa ao encontro de alguém que se esquece de se levar junto? Será que o Sol, quando é muito forte, faz a sombra chegar primeiro do que a gente? Será que é assim que tudo acaba? Ou nem mesmo começa? Acordei com uma fresta de luz brincando na cama, o sol deitando a sombra das folhas em minhas pálpebras. E era tão bonito e simples ver a luz pintando os móveis de colorido que entendi o fim de um casamento: nenhum amor floresce preso numa casa, sem contemplar, por instantes, a luz de uma tarde... Então, guardei aquela fotografia por dentro dos meus olhos para quando eu olhar você. E você, como sempre, não me responder palavras, não me escrever palavras, mas quando o sol for sumindo, me estender sorrindo o seu cachecol xadrez.

                   





A viagem da tartaruga

"Dessa vez, eu fui um pouco mais longe!" Essa é a história de uma tartaruga que botou uma mochila nas costas e resolveu conhecer o mundo.



Como podem notar, a mochila era bem maior do que a sua cabeça. Dizem alguns, para disfarçar a cabeça-de-mamão-macho. Outros, que era uma mochila-barraca, sob a qual se esconderia nos dias chuvosos. Outros, que era uma borboleta sem asas, viajando num casulo-trailler. Seja lá como for, era uma tartaruga com pressa de viver.



"Pressa de viver?" - perguntou a lesma que passava por ali. "Como assim?"
A tartaruga escondeu-se em sua mochila-barraca e não respondeu. "Mas você vai aonde com uma mochila desse tamanho?" - insistiu a lesma. "Para o mar" - disse a tartaruga. "Para o mar?!? Você está louca?!? Lá tem sal! Lá tem muito sal!" - respondeu a lesma.

Então, a tartaruga mudou de direção. Não porque daquele lado o mar era salgado, mas para terminar o assunto com a lesma. E terminou o assunto. Não porque não gostava da lesma, mas porque precisava estar sempre só.
Um certo dia, porém, encontrou uma tartaruga chamada Boné.


Boné era um cara estranho. Ele não se escondeu quando eles se encontraram. E não perguntou aonde ela ia com aquela mochila. Ele também tinha uma, mas não parecia ser de viagem. Nas primeiras horas, a tartaruga continuou escondida.



Mas, como Boné não se mexia, ela colocou a cabeça para fora e espiou. Nada. Boné continuava imóvel. A tartaruga também. Afinal, talvez ele fosse o Arrancador de Cabeçaas de Tartarugas. Uf.. Ela sentiu um calafrio ao se lembrar da vez em que foi pega por ele. Embora não tenha morrido, ele arrancou muitos pedaços. Depois disso, a tartaruga sempre se escondia quando alguém tentava se aproximar. Mas Boné não se aproximava e a tartaruga, aos poucos, tentou sair da barraca.

"Ei" - cutucou. "Você está bem?" - Boné não respondeu. E também não saiu do lugar.
A tartaruga andou bem devagar ao redor dele. Quando tocou a sua mochila, descobriu um pergaminho branco, com uma história que ela jamais pôde esquecer.

 

Era uma história dura, tinha ferro, tinha mancha, tinha perigo. Vai ver tinha até Arrancadores de Cabeça. Mas era uma história doce, apesar de tudo. Uma história que dizia 100% algodão. 100% algodão... 100% algodão... a tartaruga ficou repetindo, com o olhar perdido. Que bonito era aquilo.

Passaram-se muitas semanas sem que a tartaruga seguisse viagem. Todos os dias, ela desenrolava o pergaminho e lia a história de novo. E de novo. E de novo. Era como viajar nas grutas mais fundas sem se cansar. Trazia alimentos e água para Boné, mas ele não se mexia.          
                                 

      

Um dia, um vento muito forte lançou Boné para longe. E ela, que nunca tinha visto tartaruga alguma voar, pensou que era assim que Boné terminava o assunto. E foi embora. No caminho, pensava nele. E se estivesse se debatendo naquela posição? Nenhuma tartaruga gostava de ficar olhando para o teto. Voltou.



Quando chegou perto, descobriu que dentro de Boné havia um imenso vazio. Um buraco. "Dói?" - a tartaruga perguntou. Boné não respondeu. Também, como poderia? E a tartaruga andava para lá...  E andava para cá...

                  

sem saber o que fazer. E, mesmo sem saber se era o correto, resolveu levá-lo junto.



Foi quando chegou o Arrancador de Cabeças em passos ligeiros! A tartaruga tentou correr o mais depressa que pôde, mas o Arrancador veio com tudo, olhou daqui, olhou dali, enfiou o Boné na própria cabeça e saiu. A tartaruga foi atrás, dizendo:



"Fuja, Boné! Não deixe que eles te levem! Não deixe! Fuja, fuja daí!" Mas Boné não disse nada. O vazio que tinha por dentro foi todo tomado pela cabeça do Arrancador. E a tartaruga andava para lá... E andava para cá... sem saber o que fazer. Então, elaborou um plano... (continua)


                   





Alvorada


Foto: Rita Apoena

Quando você se sentir sozinho, pegue o seu lápis e escreva. No degrau de uma escada, à beira de uma janela, no chão do seu quarto. Escreva no ar, com o dedo na água, na parede que separa o olhar vazio do outro. Recolha a lágrima a tempo, antes que ela atravesse o sorriso e vá pingar pelo queixo. E quando a ponta dos dedos estiverem úmidas, pegue as palavras que lhe fizeram companhia e comece a lavar o escuro da noite, tanto, tanto, tanto... até que amanheça.

                   





Primeira carta

Andei as ruas todas em silêncio, fazendo silêncio pelo lado de fora. Quando não quero que os meus pensamentos acordem as crianças do mundo, prefiro escrever uma carta sem muito ruído. Antes disso, chamei a minha avó. Ela só queria um abraço. Avós, na minha história, são pessoas que esperam o dia todo por um abraço. Abraços, na minha história, são técnicas de estourar, com o corpo, um balão cheio de vazios. Ah, Helano, vim pelas ruas lhe escrevendo cartas. Dois rapazes riram das roupas de um homem. Quis escrever cartas ao homem também, mas dois passos eram ainda mais longe que Paris! Queria dizer a ele que não se sentisse desconfortável no mundo, tudo bem a sua blusa ser assim. O homem baixou a cabeça como se o carteiro entre nossos passos tivesse errado os braços e o homem, já tão longe de mim, tivesse atravessado a rua. Quis dizer que a blusa roxa e brilhante brincava de voar no varal, acenando alegre aos transeuntes. Quis dizer isso a ele, quis muito, mas não disse. Há tantas coisas que não dizemos a um desconhecido. Talvez, ainda mais aos desconhecidos de Paris! Por isso lhe escrevo, para que não se esqueça de nosso mundo quentinho. Por hoje, fiquei com o começo desta carta e um abraço em minha avó. Por hoje, querido Helano, por hoje, foi só.

Não sei se foi "Os sofrimentos do jovem Werther" ou a presença do Helano no Brasil. Só sei que senti vontade de escrever cartas de novo, e o meu amigo Helano é sempre o lírico destinatário.

                   





Bilhetes

Alguns escrevem pela arte, pela linguagem, pela literatura. Esses, sim, são os bons. Eu só escrevo para fazer afagos. E porque eu tinha de encontrar um jeito de alongar os braços. E estreitar distâncias. E encontrar os pássaros: há muitas distâncias em mim (e uma enorme timidez). Uns escrevem grandes obras. Eu só escrevo bilhetes para escondê-los, com todo cuidado, embaixo das portas.

                   





Apelo

(Dalton Trevisan)

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.



Resposta

(Rita Apoena)

As meias, senhor, as meias eu vou ensinar como se costuram.
Primeiro, é preciso alinhavar o tempo. Achar a ponta mais longe e desfazer os embaraços, partindo do fim para o começo. E eu já estava no ônibus quando hesitei, quando desci no primeiro ponto que a agulha desfez entre nós. Subi as escadas em caracol, tentando cerzir a nossa fazenda, já estampada de flores tão murchas e, por mais um instante, voltei para casa, senhor. Olhei a casa, senhor. Uma camisa jogada no chão, com os braços abertos, à espera de um abraço. O meu apelo em cada canto do quarto. O batom, o vestido. A meia encolhida, sem par. A rede pendurando, solitária, um sorriso na varanda. À espera de um outro sorriso, talvez. O sorriso, na borda da xícara, o senhor esqueceu. A alça sem os laços do seu dedo. Minhas mãos na cintura. À espera dos seus braços, senhor. Nós dois rodopiando pela sala, em voltas e voltas que a cera apagou. E que devem ser as voltas dessa agulha. Da agulha que lhe ensina a costurar um tecido ferido, senhor.

Depois, é preciso desatar as linhas. As linhas que o senhor me escreveu nessa carta. E me trouxe a essa casa, um mês depois. Então, era isso, senhor? O leite coalhado. As teias de aranha costurando as fendas no teto. O saca-rolha perdido. A meia furada. A camisa sem botão... O botão sem a casa. A casa. A casa. A casa? O prato na parede. O jarro na parede. A estátua na parede. O relógio tremendo no chão. O ponteiro no cinco. O ponteiro no cinco. O ponteiro no cinco. Uma camisa com os braços rasgados. O retrato em duas partes. Um grito alto. As mãos no colo, em abandono. Ouve agora o meu apelo, senhor?    

                   





Anúncio para solitários


Foto: Rita Apoena

Procura-se um amigo sozinho
de andar discreto e gesto silencioso.
Procura-se desesperadamente um amigo
que saiba se aproximar
de um passarinho.

                   





Tempo


Foto: Rita Apoena

Parece que foi ontem, eu correndo entre as árvores tão cheias de frutos. Eu peguei um dos frutos, mordi. O tempo pegou uma das flores, caiu. Parece que foi ontem, eu deitada na grama para olhar as nuvens e meus dedos descobrindo na terra a flor que eu nunca poderia salvar. Se, ao menos, ela aceitasse o sol e a terra que eu tinha. Se, ao menos, não desistisse da primavera, quando o inverno chegasse primeiro, pousando as suas mãos sobre ela... Parece que foi hoje, os transeuntes com pressa, trazendo os caminhos do futuro para baixo dos pés. E eu entre os meus pés distraídos, descalços, colhendo do tempo, daquela antiga praça, uma erradia flor.

                   





Autobiografia autorizada

(Para Mell, que gostou)

Dessa vez, a lâmpada explodiu e eu saí do quarto gritando. Minha avó é boazinha, mas acha que estudar grego é coisa de gente moca. Eu não sei o que é gente moca. E nem o que as lâmpadas fluorescentes têm contra mim. Meu apelido de infância era Cabeça de Mamão Macho. Você acha que isso tem a ver? Por favor, não me esconda! Eu acho que a música do Zorba, o grego, começa devagar, mas depois acelera muito! Eu tenho um gato que se chama Gato de Oliveira, mas o apelido mesmo é Gatildo. Ninguém pode vestir uma blusinha nele que os gatos da rua já começam a tirar sarro: "Aê, paspalho, tira isso daí, bestão!" Definitivamente, eu não gosto de carne e de pensar que o boizinho tinha uma família e era apaixonado por uma vaca que sonhava em viver com ele para sempre, mas não foi possível porque, agora, um pedaço da sua bunda está na borda direita do meu prato. Basicamente, é isso.


                   





Sugestões para presente


Foto: Rita Apoena

Amor. Bolinhas de sabão. O som de copos com água. O som das gotas no chão. Um sorriso tímido. A música por trás dos ruídos. Um barquinho de papel. Um avião nas mãos de um menino. Um coração encostado no outro. Um ou dois para sempres. Uma pipa atravessando as nuvens. Uma sementeira de tulipas. Um par de meias listradas. Dois ou três cata-ventos. Uma palavra inventada.

                   





Guilherme


Foto: Rita Apoena

"Eu senti bem. Eu senti muito bem quando caiu meu dente. Mas tava sangrando o meu dente. Aí, né. Mas eu não chorei. Eu já tava preparado. Meu amigo Léo já tava banguelo. Eu sabia que ia acontecer. Aí falei pra minha mãe tirar esse dente, depois esse, esse. Aí, né. Aí, eu fiquei assim, banguelinho sem dente."

                   





Dona Maria Helena



"Ô Ritinha, mas foi mesmo? Você achou o seu amor na internet, foi? Será que você não arrumava um namoradinho pra mim, também? Você diz lá que eu tenho 72 anos, morena, olhos verdes, sou pobre e procuro um homem da minha idade para ser feliz. Eu tenho paciência com ele. Ele tem paciência comigo. Nós dois juntos vamos alugar uma casinha e viver... juntinhos. Um pouquinho que ele ganha, um pouquinho que eu ganho, a gente vai passear, viajar, vamos pra tudo lugar. Só isso, tá ótimo."

                   





Blognovela: o Casamento de D. Lulu


Foto: Rita Apoena

Naquela época, era diferente. Dona Lulu quem fazia a corte. Escrevia cartas, mandava flores... mas Seu Carlinhos permanecia desconfiado. Disse que só aceitaria o namoro se ela pedisse a sua mão para os pais. Dona Lulu aceitou, mas avisou que não pensava em se casar... Seu Carlinhos ficou indignado! Disse que era um homem direito, ora essa. Por fim, chegaram a um acordo quando ele aceitou ser o dono-de-casa. Enquanto ele plantasse e cultivasse as mandiocas, ela iria ao rio pescar ou à caça dos animais para o almoço - eles não eram vegetarianos. (Depois, quando ela chegasse exausta e desmaiasse no sofá, ouviria toda sorte de reclamação. Que já não o beijava com tanta paixão, que não se preocupava mais com as preliminares...) Dona Lulu pressentiu tudo isso num segundo, mas gostava tanto de Seu Carlinhos que decidiu seguir adiante.


Foto: Rita Apoena

Ao chegar, o pai de Seu Carlinhos foi logo dizendo que Dona Lulu tinha feito uma ótima escolha! O filho era muito prendado: sabia cozinhar, lavar, passar, costurar, arrumar a casa e cuidar do jardim. Além disso, ele já tinha o enxoval completo, desde mocinho. Disse que o filho tinha jeito com as crianças e... ainda era virgem. Dona Lulu explicou: "Sou uma mulher moderna, não faço questão que o homem seja virgem para se casar comigo." E o pai balançou a cabeça: "Verdade! Mais importante é Carlinhos ser prendado porque vocês mulheres saem para trabalhar fora e, ao chegar, querem encontrar a comida feita, o marido cheirosinho, com uma cueca de renda, né?" Dona Lulu coçou a cabeça. O pai de Seu Carlinhos era meio estranho, mas ela gostava tanto do moço que decidiu seguir adiante.


Foto: Rita Apoena

O problema foi a mãe do Seu Carlinhos. Chegou à casa nervosa, batendo na mesa: "Bem, cadê a janta? Ainda não fez? Mas que lubrificação!". O marido tentou acalmá-la: "Ah, não fale palavrão na frente da visita, o jantar está quase pronto..." A mãe olhou os cantos, farejando: "Visita? Que visita?". Quando Lulu viu a sogra, escondeu-se atrás da cortina! "O que é isso?", perguntou a mãe. "É a moça que veio pedir a mão do nosso Carlinhos...", respondeu o pai com os olhos marejados. "Está louco?! Essa fêmea quer levar o nosso filho?! Ela vai se casar é com a minha espingarda, isso sim!" Ixi! Dona Lulu fugiu como pôde, naquela época, as mães eram muito bravas. O jeito era um só: fugir com o Seu Carlinhos! Então, foi correndo buscá-lo, no cabeleireiro.


Foto: Rita Apoena

Dona Lulu entrou no cabeleireiro e ficou espantada. Todos os homens falavam mal de suas mulheres. Alguns faziam a unha. Outros depilavam a barba com cera. E todos usavam máscaras de pepino. Depois, entravam em capacetes gigantes, de onde saía... vento! "Será que são cabeças-de-vento?" - ela pensou - "Será que são cabines de comunicação extraterrestre? Será que entram ali, com a cara verde, para falar com marcianos? Será que os homens estão planejando dominar o mundo?"

De repente, alguém gritou: "Socorro! O que você fez com meu cabelinho? Você cortou três dedos! Que tragédia!". Dona Lulu, achando estranho, comentou: "Nossa, os homens dão tanta importância aos cabelos!" E o moço ao lado respondeu: "Não ligue pra ele! Sansão é assim mesmo! Todo mês é esse estresse na hora de aparar as pontas!". Lulu continuou: "Bom... só estou aqui para falar com Carlinhos, você sabe onde posso encontrá-lo?" Antes que ele pudesse responder, uma cabine esfumaçada pousou no chão. "Será Deus Marte?" - pensou Dona Lulu - "Será a mãe de Carlinhos com uma espingarda? Ou será o Rei dos Baixinhos, em mais um programa Sonho dos Apaixonados?"


Foto: Rita Apoena

Pois é, amiguinhos. Por incrível que pareça era mesmo o Rei dos Baixinhos, do alto dos seus 15 cm, em mais um programa Sonho dos Apaixonados. Bah...! Dona Lulu não entendia por que tanta confusão. Só queria ficar em paz com Seu Carlinhos, sozinhos, mas antes que pudesse ir embora, o apresentador começou:

Rei dos Baixinhos: Boa tarde, telespectadores! Estamos aqui, nesse programa maravilhoso, para contar a todo o Brasil a linda história de amor entre Lulu e Carlinhos! Um amor que venceu todas as barreiras para seguir adiante e triunfar! Mas, antes de começarmos, vamos chamar os nossos patrocinadores!

Patrocinadores: Se os pêlos do seu peito estão embaraçados, se o seu bigode já não é mais o mesmo, cheio de pontas duplas e danificadas, use o creme de silicone Victor Kaf. O nosso creme reúne ingredientes altamente selecionados! Victor Kaf, a alegria dos seus pelinhos! É com você, Rei dos Baixinhos!


Foto: Rita Apoena

Rei dos Baixinhos: Chegamos ao momento mais esperado: a prova da fidelidade! Colocamos Lulu na cabine acusticamente isolada e tudo que ela precisa fazer é responder SIM! ou NÃO! quando a luz acender! Lulu querida, você tem em seu coração a pessoa mais linda do mundo, o grande amor da sua vida: Seu Carlinhos! O que o Brasil inteiro quer saber é: você quer trocar o seu amado pelo Wando, Dona Lulu? (Em meio ao mais absoluto silêncio, a luz acendeu. Como Lulu era uma pessoa muito positiva, entre o sim e o não, é óbvio que ela escolheu o sim.

Dona Lulu: - Siiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmm!!! (A platéia reagiu aos gritos. Homens enfraqueciam as bandeiras de apoio e levavam a mão à boca, decepcionados com a conduta amorosa de Lulu).

Rei dos Baixinhos: Dona Lulu! Como pôde trocar o seu grande amor assim, tão facilmente? (Dona Lulu, sem entender nada, só sorria). Lulu querida, vamos para a penúltima etapa da prova. Não nos decepcione! Agora, você tem em seu placar o Wando. O que o Brasil inteiro quer saber é: você quer trocar o Wando pelo Fofão e mais cinquenta caixas de chocolates Diziolli? Outra vez, no silêncio da cabine, a luz acendeu. Dona Lulu ficou pensando entre o sim e o não. Como sempre teve dificuldades para dizer não, escolheu o sim:

Dona Lulu: - Siiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmm!!!

Rei dos Baixinhos: Dona Lulu! Mas o que é isso? Você veio aqui para casar ou tirar uma casquinha dos participantes? Vamos tentar de novo! Não desperdice essa chance! Você quer trocar o Fofão por Seu Carlinhos, o grande amor da sua vida?

A luz da cabine acendeu.

Dona Lulu: - Siiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmm!!!

Rei dos Baixinhos: Ela disse sim! Atenção, telespectadores. Eis o momento mais importante da noite. Se Dona Lulu escolher Seu Carlinhos, eles saem daqui com as alianças de casamento e uma casa novinha em folha. Mas... se ela não escolher Seu Carlinhos, segundo os contratos do jogo, terá de se casar com o homem no placar e não terá nenhuma ajuda do programa Sonho dos Apaixonados, pois somos a favor da mais absoluta fidelidade! Atenção, Dona Lulu! Você quer trocar o grande amor da sua vida por Jece Valadão, líder na luta pelos direitos masculinos?

Dessa vez, Dona Lulu teve um certo pressentimento, como se o seu coração estivesse avisando alguma coisa. Uma espécie de intuição masculina. Por isso, apesar do otimismo, disse não:

Dona Lulu: - Nããããããããããããããããããooooooo!!!

(Falha nos microfones da cabine).

Rei dos Baixinhos: Eu sei que é uma decisão muito difícil. Afinal, Jece Valadão é uma personalidade e tanto. Mas você precisa decidir, garota! Vamos lá, o Brasil quer ouvir sua resposta! Dona Lulu: - Nããããããããããããããããããooooooo!!!

(Falha nos microfones da cabine).

Rei dos Baixinhos: Tudo bem, vamos deixar Dona Lulu pensar um pouco mais. Parece que ela está um pouco indecisa. Para quem não sabe, Jece Valadão ficou conhecido nos anos 60 por ter queimado as cuecas em praça pública. "Abaixo às cuecas, deixe o seu amigo soltinho". A campanha teria alcançado grande sucesso se, ao queimar a própria cueca, o fogo não tivesse queimado as partes impróprias e...

O microfone do Rei dos Baixinhos começou a pegar fogo!

Rei dos Baixinhos: Socorro! Deu curto no microfone! Ele está pegando fogo! Socorro! Socorro! Alguém me ajude! Corta! Corta! Corta! Chamem nossos patrocinadores!

Patrocinadores: Claro, Rei dos Baixinhos! Se os seus pêlos estão embaraçados, queimados ou esturricados, use o creme de silicone Victor Kaf. O nosso creme reúne ingredientes altamente selecionados e, se usado todas as noites, fará com que os seus pêlos estejam sempre macios e perfumados! Creme de Silicone Victor Kaf: a alegria dos seus pelinhos!

(continua)

                   





A menina e o arco-íris


Foto: Rita Apoena

Todo dia, a menina corria o quintal, procurando um arco-íris. Corria olhando para o alto, tropeçava e caía. Toda vez que se machucava, vinha chorando uma cor. Um dia, chorou o anil até esvaziá-lo dos olhos. Depois, chorou laranja, chorou vermelho e azul. Chorou verde. Violeta. Amarelo e até transparente! Chorou todas as cores que tinha, todas as cores de dentro. Então, abriu os olhos e nem o arco-íris, ela viu. Não viu flores e borboletas. Não viu árvores e passarinhos. Pensando que era ainda noite, deitou-se na cama e dormiu. Pensando que era tudo escuro, nem levantar-se ela quis! Ficou dormindo cinzenta, por dias e noites sem fim... Foi quando um sonho, tão colorido, derramou-se dentro dela! Tingiu o travesseiro e a fronha, o lençol e o pijaminha. Tingiu a meia e o quarto. Tingiu as casas e os ninhos! A menina abriu a janela e viu que hoje não tinha arco-íris. Mas tinha o desenho das nuvens. Tinha as flores e um passarinho.

                   





O amor nos pequenos gestos
Dona Luíza II


Fotos: Rita Apoena

"Você sabe, o Brasil é novo perante o estrangeiro. Daí vieram um bocado das gentes, uns nadando, outros num pé de tábua - aquelas tábuas que parecem um naviozinho, não afundam. Foi aumentando a população, eu acho assim. Eu não gosto de certas coisas, vieram do estrangeiro de navio com os escravos. Como que traziam os escravos! Naquele porão, um por cima do outro, como... como uma coisa que não fossem gente! Os escravos faziam cocô, xixi, tudo ali entre eles, saíam tudo sujos aqueles rapazes lindos, morenos. Como que um povo que começa assim, Ritinha, pode ter respeito por si? A Bahia foi o primeiro lugar do Brasil, a Bahia tem muito valor, mas o povo vem de lá sem saber do valor que tem..."

                   





Jornal das Pequenas Coisas


O algodão-doce


Ilustração de Carlos Evangelista, querido, querido, querido!

Quando eu era pequenina e espiava o mundo pelas grades do portão, via sempre um véinho passando, gritando: Ói algodão! Um dia, resolvi sair e pegar a fila das crianças. Fiquei esperando o véinho transformar açúcar em nuvens, açúcar em mágica, em pedaços de carinho. Quando ficou pronto, mal podia acreditar! Peguei o algodão nos dedos e perna-pra-te-catar!

Lá de longe, o véinho gritou: Ô Ritinha, mas e o dinheeeeeeiro, Ritinha? Eu virei e respondi: Não, vô! Num picisa de dinheiro, não! Só o algodão-doce já tá ótimo! Só o algodão-doce tá bão! O véinho deu risada e logo respondeu: É mesmo, né Ritinha? Só o algodão-doce já tá ótimo! Só o algodão-doce tá bão! :)


                   





Metáforas
Acerca del Viaje


Ilustração de Pablo Gamba, querido, querido, querido! 

Donde quiera que el ómnibus me lleve
el sol acompaña mi rostro a través de la ventana
como un barrilete!
amarrado por la esperanza.

                   





Jornal das Pequenas Coisas


O caramujo e a poça d'água

Ele achava bem difícil, era quase saltar de um abismo! Chegava pertinho da poça, mas voltava pro esconderijo. Seus amigos não entendiam por que ele se sentia assim. Nunca viram caramujo com esse medo d'água fria! Mas o caramujo temia e toda hora imaginava que de dentro da poça pulavam jacarés e crocodilos! Os colegas diziam: "Ô Mujinho, o qué qué isso! Óia lá se tem cabimento um jacaré morar ali dentro?! E ainda ficar pulando?! Será uma Cuca com Saci-Pererê?" E foi tanta gargalhada que Mujinho decidiu: ele ia atravessar a água sem esse mas-nem-porquê. E quando abriu os olhinhos, esperando o crocodilo, viu que a água era doce e o caminho, tranquilo. Não tinha bicho e nem monstro! Tinha só um caramujinho, refletido lá dentro...


                   





Metáforas


Sobre o aborto

E naquele dia,
o seu filho nasceu para dentro.
E quanto mais o tempo passava,
mais o menino crescia:
esbarrando no seu coração.


                   





Metáforas
Sobre o sono

O sono chega
quando a noite tenta
pendurar-se em minhas pálpebras
amarrando estrelas
- uma a uma -
em cada cílio.

                   





Metáforas
Sobre o arrepio

O arrepio é quando,
por serem tão leves,
seus dedos conseguem,
em cada um dos meus poros:
soerguer uma flor.

                   





Metáforas
Sobre os poetas

Sobre os poetas

O mágico nunca conta os seus segredos.
O poeta nunca explica uma entrelinha.


                   








Foto: Rita Apoena

Hoje, a minha avó dormiu para sempre.
Dorminhoca.

                   





O amor nos pequenos gestos
Dona Epifânia IV


Foto: Rita Apoena

"Mas ela era assim. Tinha um fio dela, que era bandido e andava mais Lampião. Apois ele chegava, quebrava os dente dos cavalo, batia tudo nos coitado que ia buscar leite, furava os cavalo de punhal... Aí, quando foi num dia, ela tava deitada, levantou-se e disse: 'Me levanta aqui?'. Aí, levantemo ela pra mor de sentá. Ela disse: 'Venceslau tá correndo perigo.' Falei: 'Ele tá na casa dele, Mãinha, não tem ninguém lá'. E ela: 'Mas ele tá correndo perigo. Eu sei. Me levanta aqui que eu vou lá na  casa dele.' Aí, quando chegou lá, a mulher dele disse: 'Tá tudo bem, nós vai tudo dormir!'  Apois ela disse: 'vou dormir aqui tombém. Me chamaram aqui, eu sei! Eu sei que Venceslau tá preciso de mim!'  Quando foi de manhã cedinho, ela levantou-se e disse: 'Deixe eu ir na frente.' Pois chegou no muro e viu. O pessoal tudo sentado de arma, mirando pra ela, esperando Venceslau, que fazia muita desgraça mais Lampião. Ela: 'Mas gente, pare!' Era tiro pra tudo lado, como não saiu uma bala nela? Nem em Venceslau? Ela: 'Gente, pare! Vocês não vão conseguir.' Mas tudo o que ela falava era incrívi. Apois, eles pararam. Ela disse: 'Pode ser outro dia, mas hoje não.' Daí, ela foi lá porque sabia que ia acontecer alguma coisa mais ele. Ela sabia tudo, igual a minha avó. Mas minha avó não ensinava pra tudos os fio, só pra minha mãe, porque sabia que ela não ia fazer mal a ninguém. Você acha? Se eu tivesse um poder daquele, mandava matar o desgraçado. Por isso, minha avó dizia que a Mãe ela ensinava, mas aos outro nium. Pois o que ela sabia era pu bem e pu mal. E ela só queria o bem dos outo, por mais ruim que era, não queria o mal..."

                   





Metáforas
Segredos

Meu vestido é cheio de segredos.
A cada botão que você abre,
sinto uma rosa desabrochar.

                   





Dicionário educado IV

Quando alguém olha para você e estende aquele dedo do meio, ele está querendo dizer: "Escuta aqui, você não é mindinho, não é o fura-bolo e, muito menos, o cata-piolho! Você é o maior de todos, amigão!!! Você é o maior de todos!!!"

                   





Instruções para se apaixonar

Encha o peito com mais de trezentos suspiros,
quando estiver bem levinho,
solte as amarras
e flutue.

                   





Dicionário educado III

Mas quando as pessoas dizem: "Vá tomar banho!" pode ser que estejam dizendo só isso mesmo, principalmente, se faz muito tempo que você não vê um sabonete.

                   





Dicionário educado II

Quando as pessoas dizem: "Ah, vá te catar!" elas querem dizer: "Caro amigo, espero que você entre num grande processo de auto-conhecimento, uma grande jornada em busca de si mesmo e, ao final de tudo, possa achar o fio da meada e se encontrar!"

                   





O amor nos pequenos gestos
Dona Epifânia III


Foto: Rita Apoena

"Quando foi num dia, só tinha a comida da tarde, não tinha outra coisa, mais nada. Aí de tardezinha chegou um pessoal do Ceará, eles enchia um comboio de criança, pra mor de ir para outro lugar porque não tinha o que de comer. Aí, disseram: 'Ói dona, meus fio tá tudo morrendo de fome, não tem um bocado pra dar?' Minha mãe: 'Eu tenho, claro!'. E nós tudo olhando. Ela pegou tudinho numa cuia, rapou tudo e deu a eles. Aí eu virei pra ela: 'Mãezinha, e nós? O que diacho nós vamo cumê de noite? A senhora deu tudo a eles! Nós não tem mais nada!' Ela falou: 'Deus me deu dó a dar a quem não tem. Não vai me deixar faltar'. Então, foi de noitinha já, chegou uns comandante, vinha de Sergipe, Jeremoabo, tudo. Vinha aquele comboio. Uns vinha com milho, feijão, outro com arroz, rapadura, carne seca, café, tudo. Vinha uns doze animal, tudo carregado. E eles tudo co´a roupa suja. Tempo de chuva. Aí eles chegaram e disseram: 'Ô dona, será que a senhora não dava o rancho aqui, uns dois ou três dias, pra senhora fazer umas comidinha pra gente, lavá nossa roupa, nós paga a senhora.' Aí tiraram carne, farinha, feijão, mandaram fazê. Menina, era uns arribe assim, tudo lotado de comida. Pra eles e pra gente. Aí nos comemo. Aí, ela falou, no meio daquelas panelas gostosa de comida: 'Oi fia, num falei? Num falei que a gente num ia dormir com fome? Você deve aprender isso, minha fia, a gente não pode deixar ninguém com fome, a gente deve de repartir nem que seja um grão de arroz, que você dê de bom coração...' "

                   





Yolk's e a Menina Invisível


Ilustração: Jovan de Melo

Eu não tenho cabelos vermelhos e o meu vestido não é amarelo. Eu sou só uma menina invisível, deitada na grama invisível que a moça que não sabia desenhar, não desenhou. Aquele é o menino que eu não lhe falei. Ele sempre está preso num único instante; o instante em que o moço que sabia desenhar, o desenhou.

O balão que subia as nuvens, com várias crianças chamando, teve de desviar o caminho, pois não fazia parte desse desenho. O avião que trazia uma faixa, com linda declaração de amor, teve de mudar a rota, pois neste céu azul é que não foi desenhado. O pombo-correio que veio voando de fora da imagem, bateu o bico na borda e caiu. Por isso, o menino está sempre só.

Se as crianças do balão não conseguiram. Se o avião também não conseguiu. Se nem o pombo-correio teve sucesso, como é que eu, uma menina invisível, feita de palavras, poderia chegar até ele? Foi o que passei dias e dias pensando. Então, numa de minhas viagens, ouvi dizer que uma imagem valia mais do que mil palavras. Não tive dúvidas. Abri a oficina invisível, acendi as luzes transparentes e comecei a construir este imenso abraço de palavras. De mil e duas palavras. Para, um dia, entregar a ele.

                   





Metáforas
Quimeras

Quando ficar triste,
achando tudo mentira,
verá sonhos invertidos:
como imagens no espelho
mostrando por antônimos
o que o outro queria ter sido.

Não brigue: a verdade mais frágil
saberá dele.

                   





Metáforas
Tremores

Deito-me ao teu lado e meus dedos se desmoronam. Já não têm onde morar, esconsos e sozinhos, no cós da tua calça. Sinto o tremor do teu corpo, o zíper abrindo fendas num terremoto. O mundo se agita. A calça se parte. Minhas mãos são agora como fios de água sugados pela fenda na terra e entram pelos tecidos de poliamida e algodão. Minha boca te esconde em porões à prova de sismo: o teu corpo treme, as ondas se espalham. Pobre homem, não te assusta... a minha saliva te queima, mas minha língua te acalma: a minha boca é só um vulcão ao contrário. Toma essas pétalas escondidas no bojo dos meus seios: eu só queria que o teu mundo fosse tenro. E fosse calmo.

                   





Metáforas
Mariana

lambeu as lágrimas que escorriam,
manchando a língua de tristezas.
Quando o vazio é muito grande,
as lágrimas são transparentes.

                   





Metáforas
Sobre os livros

Era uma vez um leitor, curioso sobre a história dentro de um livro. Era uma vez um livro, curioso sobre os olhos daquele leitor. Era uma vez a história de um. Era uma vez a história de outro. Mas porque alguém tinha de dar o braço a torcer, o livro rendeu-se e começou o primeiro capítulo. Os livros sempre se rendem: não é a toa que eles capitulam.

                   





Metáforas
Sobre a reciclagem

Eu sou contra a pena de lixo. Sou a favor da reciclagem. Afinal, o lixo também merece uma segunda chance.

                   





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Comunidade Rita Apoena
Comunidade do Jornal
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Textos e fotos: Rita Apoena Ilustração do topo: Liniers
Desenhos: Jay e Pablo
Música: Amiina








Rita Apoena divide o quarto com uma lagartixa chamada Judith. Judith sempre volta para ouvir mais um trecho do seu livro. "Se o pessoal tiver o mesmo gosto da lagartixa, o meu livro vai ser um sucesso!" ela pensa animada.



Ilford FP4 e Fuji Provalue.